Remar para onde?

segunda-feira, 9 de abril de 2012 00:11 Postado por Arielle Gonzalez
A moça não esperava nada daquele domingo. Seria mais um feriado normal, comemorado pelo motivo errado e de forma equivocada. A família se reuniria e colocaria a vida em dia, como se poucas horas de convivência fossem capazes de substituir aquilo que se perde com meses de ausência.

Nada demais. Ela estava acostumada. Amortecida. Esses encontros eram sempre iguais e, por isso mesmo, proporcionavam o consolo que apenas as coisas conhecidas podem oferecer. Era como voltar pra casa depois de um longo período de isolação. Somente esses momentos tinham o poder de causar duas sensações extremamente distintas e interligadas: a realização de que tudo mudou porque eles não voltarão e a percepção de que nada mudou pois eles ainda se fazem presentes nesse futuro do qual não fazem mais parte. De alguma maneira, eles sempre dão um jeito de voltar e ficar tempo suficiênte para apenas aumentar o vazio que deixaram para trás.

No retorno para casa, ocorreu uma revelação que nada tinha a ver com as reflexões anteriores. Mais uma vez, a garota teve certeza de que havia decifrado os sentimentos por aquele menino que há tempos assombrava o peito dela. A ideia estava longe de ser inédita, não passava de uma reciclagem. A verdade é que o pensamento não foi uma descoberta, foi a compreensão de algo que leu no passado. A moça, finalmente, entendeu que para amá-lo mais era indispensável amá-lo menos, bem menos ou quase nada. Para isso, decidiu fazer sempre o oposto do que faria normalmente.

Quando chegou em casa, correu para achar o texto da moça igualmente desafortunada nos assuntos do coração com intenção de escrever algo inspirado. Mas no meio de tantos trechos e frases soltas, acabou se perdendo e se achou nisso aqui: Eu gostaria de saber se você pode me ver, ou me ouvir e, quando você pudesse me ver ou me ouvir, pois eu não tenho certeza se quero que você veja tudo. Mas acho que, se eu pudesse escolher, eu escolheria tudo em vez de nada, por mais constrangedor que fosse. Mas, obviamente, isso não cabe a mim. Se fosse por minha conta, você estaria aqui, de pé, ao meu lado, e nós estaríamos visitando os túmulos de outras pessoas, alguém que gostássemos, mas de quem não sentiríamos tanta falta assim. 

De repente, nenhuma revelação sobre um rapaz distraído pareceu importante. Pois a garota sentiu uma vontade absurda e incontrolável de ouvir aquela voz conhecida que há algum tempo a vida a privou de ouvir. Ela revirou as memórias digitais e encontrou um pedacinho dele, algo tão pequeno diante da falta que ele faz. A moça chorou e chorou e chorou um pouco mais. Então lavou o rosto e teve a segunda revelação do dia.


Não importa o quanto as coisas estejam bem, dando certo ou encaminhadas. Não faz diferença se ela cortou o cabelo e resolveu que era hora de seguir em frente. Nada muda o que aconteceu lá atrás. E o luto, esse bichinho traiçoeiro demais, tem o dom de sumir por uns tempos, dando a impressão de que a dor sossegou, só para aparecer sem convite e cobrar a tristeza que às vezes a menina esquece de sentir.

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