Querido do meu coração

terça-feira, 18 de janeiro de 2011 16:17 Postado por Arielle Gonzalez
Começar qualquer post com a frase "eu li em algum lugar que.." é sempre motivo de piada. Quem me conhece sabe que existem três definições bem básicas sobre mim: sou leitora compulsiva, esmaltolátra descontrolada e apreciadora de boa música. Logo, estou sempre lendo algo em algum lugar, com as unhas pintadas de cores bizarras e procurando novidades musicais.

Uma das minhas autoras favoritas escreveu que a vida é uma série de ifs - a vida seria diferente se você tivesse apenas jogado na loteria ontem a noite ou se você tivesse escolhido outra faculdade ...  Essa mesma autora disse que deveria existir um regulamento que limitasse o luto. Um livro de regras que disesse que não tem problema acordar chorando, mas somente durante um mês. Que depois de 42 dias você não vai se virar com o coração acelerado, certa de que ouviu ele chamar o seu nome. Que não existirá nenhuma punição se você sentir a necessidade de limpar as coisas dele, jogar fora as anotações ou abaixar o porta retrato com a foto dele numa festa de família - porque a ferida parece nova toda vez que você vê o rosto dele mais uma vez. E que não tem problema medir o tempo desde que ele se foi, da mesma forma que você contava os dias para o aniversário dele.

Um ano. Apesar da minha memória falha ainda me lembro bem de como foi o dia 18 de janeiro de 2010. Mais do que isso, eu me lembro dos dias anteriores, como se fossem flashs do passado típicos de uma série americana. No dia 14, choveu mais do que na época de Noé e ele foi me buscar no serviço. O que fez com que ele me levasse até a secretaria no dia seguinte, o dia da minha primeira coletiva de imprensa. A mula aqui foi de salto e teve que voltar descalça de moto. Assim que cheguei em casa, sentei na barriga dele e disse que estava cansada de brincar disso, para depois narrar como tinha sido o meu grande dia. No sábado, ele saiu para comprar caranguejo e a noite a gente comeu pizza, as usual. Já no domingo, ele saiu com a minha moto para fazer a caranguejada anual na casa da mãe dele. Quando cheguei lá, ele estava falando sobre a coletiva de imprensa, transbordando de orgulho, e reclamou que a viseira do meu capacete estava destruída. Para variar, ele me deu os maiores caranguejos.

Eu me lembro que a segunda-feira começou com sol, mas que a chuva chegou depois que ele morreu. Eu me lembro de carregar o quinto livro do Harry Potter para todos os lados, mesmo quando não ia ler. Naquele dia, eu vi os olhos dele ficando opacos e sem vida, enquanto ele lutava para permanecer com a gente, toda vez que eu tentava dormir. Acabei o livro nessa noite. 

Um ano. Tantos dias sentindo falta de tudo a respeito dele, da risada aos berros. Tentando guardar cada memória como se fosse a coisa mais importante da minha vida, porque é. Controlando as lágrimas que brotavam nos olhos pelos motivos mais bobos e que sempre me levavam de volta para ele, me lembrando que ele não está mais aqui. Foram várias noites acompanhadas pela falta de sono e o excesso de choro. E semanas assistindo a aceitação e a negação brigando pelo lugar de destaque no meu peito. 

Durante meses, eu sorri me sentindo culpada por estar feliz quando ele não estava por perto e chorei me sentindo mal porque deveria estar bem por ele estar num lugar, supostamente, melhor. Criei mil hipóteses sobre como as coisas seriam se aquele dia tivesse sido diferente, mesmo sabendo que não foram e nunca serão. Mesmo sabendo que desejar demais, muita vezes, não é suficiente para mudar nada.

Agora, só sei que estou atrasada para o trabalho e tudo que eu consigo pensar são duas coisas bem simples, uma que eu sempre soube e outra com a qual já começo a me acostumar: pai, eu te amo muito e sinto demais a sua falta.



3 Response to "Querido do meu coração"

  1. lilianern Says:

    Vc escreve MARAVILHOSAMENTE!!!!
    Parabéns!!!!!
    Me emociono com cada post seu...

    beijos e boa sorte em sua caminhada!!!

  2. majo Says:

    E meu anjo, temos que aprender a sobreviver sem ele. Passamos por tantas coisas e vamos conseguir passar por isso também. Conforme nos falam, nos somos lutadoras. Ou como a fenix, no elevamos das cinzas.

  3. Anônimo Says:

    Infelizmente ou felizmente, algumas perdas jamais esqueceremos. Mas aprendi a olhar para alguns objetos e sorrir. Passar por alguns lugares e lembrar que ali fui feliz. Não existem palavras no papel ou da boca para fora para expressar nossos sentimentos. Sempre me disseram que a imortalidade está nos atos. E eu tenho alguém imortal comigo.

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